Segunda-feira, 6 de Novembro de 2006

No largo das memórias…

Há dias fui visitar a minha avó.

Algo de que me esqueço, ou vou deixando passar demasiadas vezes, sinto-me sempre tremendamente culpada de cada vez que a vejo.

Naquela cama onde repousa há demasiado tempo, sempre com a cara mais ternurenta que conheço, sempre rosadinha, sempre sorridente.

Olha pra mim, sorriso do tamanho do mundo, volta a dizer-me que estou uma mulher, volta a dizer-me como sou linda, e nunca esquece o ‘se eu pudesse, ia fazer-te aquele cacau quente que vinhas cá de propósito beber’…

As lágrimas brotam-nos sempre, a minha avó presenciou os meus melhores momentos de uma infância tão feliz.

No largo da aldeia, tal como quando eu era menina, tal como quando a minha mãe era menina, os miúdos continuam a encontrar-se, sem encontro marcado, à mesma hora.

Fiquei com a minha avó, o tempo suficiente para poder ir para casa tranquila e deixá-la ainda mais feliz, olhei para ela infinitamente, como se pudesse ser aquela a última vez que a via… assim.

Mais um beijinho demorado e o meu beijinho na testa, mais um ‘Precisa de alguma coisa, avó?’ e um adeus rápido, que esse sim é dos momentos mais difíceis da minha vida… a despedida.

Encostei a porta do quarto, fechei a porta da entrada e estava no largo das memórias.

O barulho era o da minha infância, os risos eram também os meus, ainda lá está a menina que eu fui.

Fiquei de perto a observar, estavam ali miúdos que eu não conhecia, mas que exibiam a mesma alegria que eu tinha, quando podia ir jogar à apanhada, à macaca, à bola…

Queria ter voltado atrás no tempo, ir a correr, de calções e camisola para junto deles, ficar por ali até anoitecer, cansar-me de tão feliz, brincar sem restrições…

                   

Uma menina perguntou-me:

-Tu és a Marisa, não és?

Voltei ao presente, fiquei incomodada. Fiz um sorriso rasgado e inocente, respondi que sim.

-Ah a minha mãe disse-me que tu vens cá poucas vezes, mas quando eras pequena estavas cá todos os dias e sempre foste muito bonita!

Ruborizei, queria ter entrado no carro e ter fugido dali, mas engoli em seco e perguntei-lhe, porque é que a mãe dizia isso.

Disse-me que me tinha visto por lá há uns tempos atrás e tinha perguntado à mãe quem era aquela mulher, que ia aquela casa onde nunca se vê ninguém, só a enfermeira.

Agora mais refeita da surpresa, disse-lhe que aquela é a casa da minha avó, e que de facto tinha também eu, tinha passado longas e divertidas tardes naquele largo, com os meus amigos e que me tinha divertido bastante… acrescentei:

 -Bom, preciso ir embora…

Acenei-lhe, entrei no carro e ouvi…

-Olha, Marisa? – falou de lá, voltei a sair.

-Sim?

-Tu és mesmo muito bonita!

Entrei novamente no carro, com os olhos rasos de lágrimas, fui para casa, e percebi que nunca mais serei feliz… como fui ali…

Escrito por Marisa às 10:12
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Quinta-feira, 2 de Novembro de 2006

Sozinha

Entrei em casa e despi-me de um dia demasiado pesado para os meus ombros, não acendi uma única luz.

A luz às vezes incomoda, faz-nos lembrar que existimos…

Um sapato, demasiado alto, na cozinha, outro na sala, a saia nas escadas, a camisa no toillete e o string à entrada do quarto… quando subi para a cama deixei o soutien no chão…

Não somos nada alem daquilo, corpo e alma, eu precisava conciliar-me com a minha.

A luz continuava desligada, não queria sequer perceber que ali estava, nunca percebi se somos nós que exigimos demasiado da vida, ou se a vida que exige demasiado de nós, às vezes só existir já custa tanto…

O telefone tocou… e eu deixei tocar, não era pra mim… era pra Marisa, forte e segura e simpática e bem disposta, plena. Eu era só a Marisa cansada, demasiado cansada, melancólica, vazia, esgotada…

Custa chegar à conclusão que o nosso melhor amigo é o espelho, que tudo o resto se rege sob aparências, protocolos e conveniências, os preços dos afectos estão cada vez mais elevados, como afinal tudo nesta vida.

Acendi a luz do candeeiro, olhei-me ao espelho que me emoldura todos os dias um sorriso e me prepara para mais um dia… doeu… muito.

Não chorei, chorar de mim depois de um dia tão mau e violento, era dar a vitória ao inimigo, eu não dou!

Inspirei, suspirei e arrepiei-me, começava a arrefecer, ou talvez a cair de novo em mim, a sentir-me, precisei tocar-me… gosto.

 

                       

Enrosquei-me em mim e deixei-me ficar num mundo perfeito, num sonho utópico, sem cobranças ou hipocrisias, um banho saberia bem… mas não agora, agora queria ficar só comigo, sozinha, que afinal é a única pessoa que gosta a sério de mim…

Escrito por Marisa às 09:41
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