Segunda-feira, 15 de Maio de 2006

Brisas do passado

Andava mortinha por fazê-lo… saí daqui, fui a casa pôr o meu vestido de linho, as minhas sandálias prateadas, e fui embora.

Assim que começavam os primeiros dias de bom sol, batia sempre uma enorme vontade de voltar lá…

E lá estava eu, de óculos de sol na esplanada do bar da praia, ainda muito deserta, onde tanto se passou, de onde conseguia ouvir o mar e avistar o infinito, ficar ali presa nos pensamentos, a exorcizar a alma.

       

Entre dois goles, vejo passar um Porshe Boxter, que subitamente me fez arrepender de ter voltado, mas… não tinha de ser quem eu não queria que fosse…

Era! Era ele, passados alguns minutos vi-o aproximar-se do bar, o ar leve dele, fez o meu coração ter um forte princípio de A.V.C., tal era a comoção.

Levei o copo à boca, intuitivamente consertei-me, queria que ele me visse bem, bonita…

Entrou na esplanada, tirou os óculos de sol que escondiam aqueles olhos verdes, que me faziam tremer de tanto ter amado.

-Marisa? Por aqui?

-Olá Gonçalo…

-Bem eras a última pessoa que eu imaginava ir encontrar.

-Pois é, mas encontraste, achas que consegues sobreviver?

-Ahahahahahahah, não perdeste o teu sentido de humor.

Eu também não o queria ter visto, o passado dói muito quando é reposto para o presente… ou queria?

-Mas tu estás muito bem!

-Ahahahahahahahaha, mais velha.

-Não, mais mulher!

-Sim isso estarei, que algo de bom nos traga a idade, mas queres sentar-te?

-Posso? Estás sozinha?

-Quantos copos vês aqui?

-Um, e uma garrafa de João Pires branco…

-Neste momento é quem me faz companhia! Pede um copo e senta-te.

Sentou-se, conversámos durante imenso tempo, se calhar demasiado tempo, porque a certa altura cheguei a achar que estava de novo encantada por ele e isso era a última coisa que me devia acontecer…

Fiquei a saber que tinha terminado tudo com a Bárbara que afinal sempre lhe tinha sido infiel, como se eu não soubesse, que tinha encontrado um bom emprego, a uns bons quilómetros dali e que voltava àquele bar sempre que lhe era permitido, porque segundo ele nunca tinha sido tão feliz como naquele Verão.

E foi tão fluente e prazeroso, que sem dar por isso anoiteceu e soprava uma brisa suave, deliciosa, que me arrepiava e eu adorava a sensação.

-A vida continua não é?

-Sim, mas podia ter sido diferente, tu gostaste muito de mim…

-Gostei é verdade e tu também gostavas imenso de mim que eu sabia, mas a Bárbara era tão mais gira e popular e fútil, todos os outros a desejavam e tu conseguiste-a, pena que nunca te tenha sido fiel…

-Tu sabias?

-Sempre soube, o pior cego é aquele que não quer ver.

-Pois, desde que terminámos nunca mais a vi… Mas tu estás linda agora, mais segura, mais magra, fica-te bem o cabelo comprido.

-Ahahahahah, obrigada.

-Olha e a tua paixão por carros?

-Continua, só tenho os pés mais assentes na terra.

-Nunca chegaste a conduzir o meu carro e essa promessa ficou-te feita quando o comprei.

-Nunca houve oportunidade…

-Hoje, convido-te pra jantar, levas o meu carro, depois viemos cá buscar o teu. Vamos esquecer, só por hoje o tempo que passou…

-Gonçalo o que foi não volta a ser.

-Pois não, agora és uma mulher com quem se deseja passar o resto da vida e eu sou só o homem que teve essa oportunidade e a deixou passar…

Levei o carro dele e soube-me tão bem... saber que levava a meu lado, quem eu tanto havia querido, no carro dele que eu sempre quis conduzir e que agora quem queria ter-me era ele.

Jantámos num qualquer restaurante, fomos tomar um copo a casa dele e conversámos, rimos, chorámos até, que o passado é por vezes melancólico…

O Gonçalo é o homem que eu sempre quis que fosse e nunca se tinha mostrado por força dos supostos amigos… foi levar-me junto do meu carro… passados dois dias…

Escrito por Marisa às 10:16
Piacere | Vero? | Grazie
|
23 comentários:
De tiago Paixão a 6 de Março de 2008 às 15:21
simplesmento belo...
bom texto, boas palavras, boas descrições...
bela história... emocionante momento
De o-amante a 10 de Dezembro de 2007 às 00:18
bonita prosa,
as historias do passado são sempre bons argumentos,...
e o pRESENTE, vive...


beijos
De Ca a 15 de Julho de 2006 às 03:19
Estou de volta e para ficar!! Me aguenta!!! Estava com imensas saudades de te ler... pois é mais uma das tuas inúmeras qualidades. Quanto ao post ... faz-me sonhar ainda mais!! Sou aquela romântica ("lamechas" ahah ) incorrigível ! Adoro pormenores em tudo... então no campo amoroso... ui , ui !! O sonho para ser real, depende não só, mas muito de nós! Lutar pelo que acreditamos, desejamos, ambicionamos é a chave para provavelmente abrir a porta da realidade de qualquer sonho! Infelizmente, acontece frequentemente... perder para dar valor! Mas quando se vai a tempo de continuar uma história inacabada, sabe tão bem! Liiiiiiiiiiiiiindo !
De Zuco a 17 de Maio de 2006 às 11:59
Vai!
Está tudo bem.

Outro dia é que estava a passear no Marques de Pombal e estava a ver que quase cada esquina tinha uma historia minha. A musica de fundo que estava na minha cabeça não era o "Setembro" (Sim eu sei... Que tudo são recordações...) mas o "My Way"

Em relação ao paragrafo do voltar onde não estive com quem não estive, isso vai ter de ficar para daqui a dois meses, minha cara!

É quue não és só tu que gostas de ser mesteriosa e cabra... :-D
De Marisa a 17 de Maio de 2006 às 12:13
Gosto de facto e parece-me que não sou só eu que gosta que eu seja...
Fico então mais tranquila o tempo vai trazer-te o que procuras, trás sempre.
Pintarolas- tempos de infãncia...
De Safira a 17 de Maio de 2006 às 01:36
Delicioso! João Pires é também o meu favorito e imagino que não há música melhor que o som do mar, para saboreá-lo...
Quanto à companhia, depende... desde que nosso interior esteja preenchido, de amor por nós próprios, o que vier será um bónus!
Continua a escrever! Adoro!
De Marisa a 17 de Maio de 2006 às 09:26
João Pires é boooommmmm...
E soube-me tão bem...
Que bom que gostas, é muito bom sabê-lo, preparada pra guardar sedredos?
Obrigada pelo carinho, beijões gulosos para ti...
De Zuco a 16 de Maio de 2006 às 15:47
Muitas vezes voltei aos sitios da minha vida (aliás, eles são cada vez mais o que me diz que a vida já vai longa) mas nunca os encontrei na mesma.

Muitas vezes encontrei pessoas do passado, mas ele nunca voltou.

Algumas vezes estive com pessoas no mesmo sitio passado e tirando evocação de recordações, nunca foi igual.

No entanto... Porque tambem (pois... "Tambem") sou um romantico, vou estar onde não estive com quem devia ter estado. O passado não volta, mas ás vezes não custa fazer de conta que sim.
(Esta coisa assim não se percebe, mas daqui a 2 meses já se esclarece)

Baci com Baci se paga
De Marisa a 16 de Maio de 2006 às 15:52
Mas que filosófico, dito assim até pareces melancólico.
O bicho pegou?
Há azar?
Ou melhor, afinal gostaste do texto ou não?
Vai uma taça de 'Porta da ravessa'?
De MSDOS a 16 de Maio de 2006 às 12:55
Ora bem! Deixa cá ver o que escrever num espaço tão reduzido! Pronto é devido à insistência e obstinação da Marisa, rainha deste espaço, que comento. Claro está que colocar o link directo para os comentários também ajudou. Em primeiro lugar dizer que este Blog pelo seu ecletismo é dos mais interessantes que tenho visto nos últimos tempos, ele é poesia, ele é erotismo, ele é sensualidade, ele é actualidades, enfim um espaço que fala de tudo sem preconceitos, mas de forma leve bem desenhada, bem escrita e concumitantemente interessante. (Aquilo que acabei de fazer é o que vulgarmente chamo de fazer uma mamada do tamanho de um cavalo, o que não me custa fazer de vez em quando sempre que é merecida, o que neste caso acontece). Pois que a Marisa surpreende-nos (outalvez não) neste seu último texto, pela liberdade que deixa ao seu leitor de programar e definir o que se passou num tempo limitado de 2 dias. A descoberta de um amor passado, de um corpo já conhecido, é no texto da autora o ponto de partida para nos dar uma ideia (a dela) de recordações doces, amargas mas repletas de sensações novas. A autora conduz-nos com mestria aos seus segredos, sem nunca revelar o que se esconde por detrás do veu da intimidade. Ficamos a saber que o rapaz tem gostos caros, e que provavelmente tem dinheiro para os manter, logo poderemos pensar que a personagem do conto gosta de homens de gostos caros com dinheiro para os manter, inviabilizando desde já o envio do meu curriculum candidatura, dado que só preencho 50% dos requisitos... O texto foi magistralmente organizado para o climax final, qual orgasmo sentido ao som do mar com as estrelas por testemunhas (espero que me desculpes esta imagem cliché). Notoriamente um talento recem nascido a blogosfera! Esperemos pois que esse talento se confirme e amadureça, que o prazer de o ler nunca se desvaneça. Um beijinho respeitoso... ( ok deixa lá o respeitoso) para ti Marisa do MSDOS (o tipo com um forte poder de síntese!
De Marisa a 16 de Maio de 2006 às 15:15
Ahahahhaahahahahahahah, valeu a pena esperar!
Pensas isso tudo de mim?
Sabes mais de mim que eu, o que me é desconfortável, és o meu fã pá.
Ok, o Porshe ajudou, ok, mas o não foi só por isso, convenhamos que depois de uma garrafa de João Pires...
Que bom que gostaste e gostas de me ler, eu tambem te leio com muito piacere...
Baci, sem respeito nenhum, todo lambuzado!
De Carlos a 16 de Maio de 2006 às 11:45
Teu corpo claro e perfeito,

Teu corpo de maravilha,

Quero possuí-lo no leito estreito da redondilha...

Teu corpo é tudo o
quecheira...

Rosa...flor de laranjeira...

Teu corpo, branco e macio, ë como um véu de noivado...

Teu corpo é dourado...

Rosal queimado do estio,

Desfalecido em perfume

Teu corpo é chama e flameja

Como à tarde os horizontes...

E puro como nas fontes

A água clara que cereja,

Que em cantigas se derrama...

Volúpia da água e da chama...

A todo o momento o vejo...

Teu corpo...a única ilha

No oceano do meu desejo...

Teu corpo é tudo o que brilha,

Teu corpo é tudo o que cheira...

Rosa, flor de laranjeira...


* Manoel Bandeira

De Marisa a 16 de Maio de 2006 às 11:48
Mais uma vez obrigado Carlos, lindo, lindo.
É sempre um prazer receber aqui os seus escritos ou as suas preferencias poéticas.
Volte, baci...
De h_sexy a 16 de Maio de 2006 às 10:17
Deixo-te aqui um excerto de Eugenio de Andrade, que quanto a mim define este texto
Beijo

"Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos."

De Marisa a 16 de Maio de 2006 às 10:20
E deixaste muito bem, amei H...
Sabes que gosto muito da poesia de Eugénio e esta não foge à regra.
Grata pela simpatia, baci...
De Mario a 16 de Maio de 2006 às 10:05
Quem não sofre de amor não ama!
Se eu pudesse deixar de amar
quem nunca me amou
Se eu pudesse ir buscar algum mal
a quem mal em mim sempre encontrou
Assim me vingaria eu,
se pudesse dar sofrimento
a quem sempre sofrimento me deu
Mas não posso enganar
o meu coração, que me enganou
Ao me fazer desejar
Quem nunca me desejou
Peço assim que me ajude a desamparar
Quem sempre me desamparou
Ou a perturbar
quem sempre me perturbou
Eu tento perguntar
A quem nunca nada me perguntou
Porquê que me esforço a cuidar
De quem nunca de mim cuidou
E assim sofro eu:
Porque não posso dar sofrimento
A quem sempre sofrimento me deu.
De Marisa a 16 de Maio de 2006 às 10:10
Muito bem Mario!
Adorei, bem escrito, muito sentido.
Grata pela visita, baci.

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