Segunda-feira, 10 de Julho de 2006

Infância

O Paulo foi o meu grande amigo de infância!

Sempre brincámos juntos, o Paulo era o miúdo que me acompanhava, sempre que eu tinha que ir fazer um recado à minha mãe, ou ia buscar qualquer coisa à loja da D. Bia, ele via-me a passar, pela janela, vinha a correr e fazia questão de me trazer os sacos que ia entregar com brio à minha mãe, e depois muito timidamente ainda lhe pedia se me deixava ir brincar com ele…

As nossas casas ficavam na mesma rua, que tinha pouco mais casas e um largo enorme onde ficávamos horas a jogar à bola, ao berlinde, ao pião, ou íamos só dar uma volta de bicicleta, depois ia jantar a casa dele ou vice-versa, éramos como se da família.

Fomos juntos pra primária e fizemos questão de levar mochilas iguais, todos os dias depois das aulas vínhamos pra casa, fazíamos o que havia sido estipulado em casa, depois os deveres da escola e depois íamos brincar até anoitecer.

                  

 

Haviam outros rapazes, outras raparigas, mas nunca ninguém beliscou sequer a nossa cumplicidade, toda a gente daquela aldeia sabia que onde andasse o Paulo andava a Marisa e vice-versa, se o Paulo ficasse de castigo, eu também não queria sair de casa.

Quando fomos pró 5º ano ficámos na mesma turma, o que foi uma grande felicidade, porque continuámos a nossa amizade, fazíamos trabalhos de grupo juntos, íamos e vínhamos no mesmo autocarro e pouco mudou.

O Paulo sempre foi um miúdo muito inteligente e desde sempre me lembro de o ouvir dizer que ia ser piloto de aviões, sabia tudo o que havia pra saber acerca disso, era um óptimo filho, que fazia muito bem todas as tarefas domésticas, sempre responsável e com notas bem acima de razoáveis.

Quando fui para o Liceu ele foi para outra escola, e passados poucos meses mudei de casa, para outra localidade, pelo que foi um corte na nossa amizade, repentino e muito doloroso.

Depois disso voltei a vê-lo muito poucas vezes e apenas para um ‘Como estás’, passado pouco tempo soube que deixou o 10º ano e foi trabalhar…

Custou-me imenso, porque sabia dos seus sonhos, das suas capacidades e nunca percebi o que o fez mudar tão rapidamente…

Inexplicavelmente nunca mais falámos, como tínhamos falado tantas vezes antes, nunca percebi as suas razões, nem onde ficou aquele miúdo, que eu sempre pensei iria ficar comigo o resto da minha vida…

Ontem fui comprar pão, de manhã bem cedinho… e ele estava lá… eu acho que era só uma sombra dele…

O que vi foi no mínimo desolador, aterrador!

Um homem desleixado, desamparado, o brilho que lhe conhecia nos olhos, desapareceu.

Sentado a um canto, olhar perdido, olheiras profundas, cheiro de quem não tem o mínimo brio por si próprio, roupas gastas, sujas e mãos calejadas, encardidas…

Senti o chão a fugir-me dos pés, uma tristeza profunda a percorrer-me a alma.

-Olá Paulo!

Disse-o com o ar mais natural que consegui, mas saiu algo de assustadoramente falso.

-Olá Marisa, há quanto tempo.

-Então vieste tomar o pequeno-almoço?

-Não vou-me deitar agora, passei e vim beber uma cerveja.

Olhar para ele, era como rever a toda a minha infância e senti-la a perder-se a cada segundo.

-Então e estás em casa dos teus pais, ainda?

-Estou mas só durante mais um mesito, houve um azar, vou ser pai em Outubro e eles disseram-me que tenho de sair entretanto… Nem sei que te diga. E tu já casaste?

Engoli em seco, estava perplexa, não consegui responder.

-Bom, gostei de te ver, agora tenho que ir embora, boa sorte e parabéns.

Voltei costas e ainda o ouvi murmurar:

-Grande sorte, a minha…

No caminho pra casa, que me pareceu muito longo, não me saía aquela imagem da cabeça, aquelas palavras, aquele não era o meu amigo Paulo.

Não sei por onde passei, cheguei a casa, pousei o pão na bancada da cozinha e as lágrimas corriam-me pela face…

Escrito por Marisa às 10:05
Piacere | Vero? | Grazie
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27 comentários:
De Ca a 15 de Julho de 2006 às 06:29
O que fazer?
Guardar preciosamente os bons momentos.
Esses nada, nem ninguém nos tira.
E desejar intensamente que o nosso amigo tenha melhor futuro dali em diante.
Afinal estamos sempre a tempo de mudar para melhor.
De Marisa a 17 de Julho de 2006 às 09:19
Pois é o que procuro fazer, mas a lembrança é muito forte...
De Maeve a 11 de Julho de 2006 às 17:05
Todos temos ou tivemos um “Paulo” nas nossas vidas.
A verdade é que custa sempre quando os reencontramos e não os reconhecemos.
A verdade é que tu já não és a mesma Marisa...ele já não é o mesmo Paulo.

Um beijo.
Fica bem.
De Marisa a 11 de Julho de 2006 às 17:13
Ola!
Obrigada pela visita.
Pois não, não sou a mesma Marisa, mas tenho tantas saudades das minhas sardas, da minha ingenuidade, de quem não conhece a maldade, ou acorda sempre com a alegria de mais um dia feliz...
O Paulo tem com certeza saudades de todos os sonhos e do que fomos... eu sei.
Baci per te.
De Cristal a 11 de Julho de 2006 às 16:04
Olá á muito tempo que não te visitava mas como sempre surpreendes, quando gostamos de alguem ou nos marcou na vida não esqueçemos e por isso sofremos quando isso acontece, no meu caso não foi o alcoól mas sim a droga e ainda hoje me lembro da sua breve existência entre nós.........
Beijinhos
De Marisa a 11 de Julho de 2006 às 17:03
Olá, obrigada então pela passagem, desta vez surpreendi mas nem tanto pela positiva... Todos conhecemos histórias destas, mas as mais próximas magoam-nos profundamente! A lembrança trás a dor. Baci per te...
De sem nome a 11 de Julho de 2006 às 10:03



Meu ser evaporei na lida insana

Do tropel de paixões, que me arrastava;

Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava


Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana

Existência falaz me não dourava!

Mas eis sucumbe a Natureza escrava


Ao mal, que a vida em sua orgia dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!

Esta alma, que sedenta em si não coube,


No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube,

Ganhe um momento o que perderam anos,

Saiba morrer o que viver não soube.

"Manuel Maria Barbosa du Bocage"
De Marisa a 11 de Julho de 2006 às 10:27
Muito obrigada!
Baci.
De Pintelho Marciano a 11 de Julho de 2006 às 09:46
Fizeste-me lembrar de um "Paulo" que fez parte da minha vida durante 26 anos.Inteligente, companheiro (qd a bebida o permitia) e sempre com um caramelo no bolso pró sobrinho caçula...Um dia o "tio Paulo" deixou de ter caramelos e deixou de contar histórias...Um carro na Marginal roubou-o á familia...Foi o que disse a minha avó...Mas não...Não foi um carro que o levou...Foi a bebida...
Talvez por isso não saiba lidar muito bem com o assunto nem tenha a sensibilidade suficiente para lidar com esse problema..Os textos continuam como se escritos com Acrobat...Quase se conseguem vêr os traços das faces, a rua e juro mesmo que consigo perceber o toldo da loja da D.Bia...
Parabéns Marisa...(se bem que não te esteja a "dizer" algo que não o tenha já "dito")
De Marisa a 11 de Julho de 2006 às 09:53
Bom dia S.! Pois é, seja 'Paulo' ou o nome que quisermos, a verdade é que nos custa tanto porque estas pessoas fazem ou fizeram parte da nossa vida, e na infância tudo tem um brilho especial, tudo vai correr bem, todos vão ser pilotos de avião e todos os sonhos estão ao alcance de um sorriso. Mas caramba, vê-lo foi como sentir facas a cortarem-me, juro que pensei morrer ali... Dava uma parte de mim, para voltar a ver o sorriso traquina dele, o carinho com que carregava as minhas compras, e como fazia de propósito pra eu fazer golo na baliza dele, dói... Obrigada... a sério! O toldo... vermelho gasto, com umas letras já amareladas do sol...
De Pintelho Marciano a 11 de Julho de 2006 às 11:47
É uma pena que a vida não sejam só textos giros com comentários irónicos que nos levam a conversas com o seu Q d'interesse...
Mas a verdade é que se contam pelos dedos as pessoas que conseguem realizar os seus sonhos...
Como diria alguém mt mais velho que eu...É a vida!
De Marisa a 11 de Julho de 2006 às 11:53
Pois é uma grande pena, mas eu deixo aqui o meu pequeno contributo e temos que aprender a gostar mais da nossa realidade, lutar por ela, e não assentar em cima de sonhos, que muitas vezes nos levam à frustração de não os pudermos concretizar. Por isso eu sonho muito baixinho, para poder ir realizando os meus sonhos... É a vida!
De Pintelho Marciano a 11 de Julho de 2006 às 11:58
Acho que mais importante que a altura dos sonhos...está o alcance dos mesmos...Sonha baixinho...mas sonha longe...(claro que isto sou eu que digo...e eu não sou pra se levar a sério)
De Lobaaaaaaaa a 10 de Julho de 2006 às 21:48
Só mais uma coisa Marisa...

O alcool mata quem o consome e quem assiste à morte lenta de quem o consome... Tenho 10 anos de experiência... e bastantes foram os momentos em que cantei para não gritar, em que sorri para não chorar, em que simplesmente deixe de dormir para sentir se tinha chegado bem...

Felizmente já passou este pesadelo! Se precisares de algum tipo de informação, diz-me...

Beijos mais que muitos.
De Marisa a 11 de Julho de 2006 às 09:19
Eu vou vivendo isso, muito de vez em quando, portanto dou-te todo o valor possível, sei do que falas...
Mas fico mesmo feliz é pela tua preocupação e atenção, para comigo e confidencia que tem o valor desta que acabaste de fazer, grande humildade e personalidade a tua!
Parabens...
De Lobaaaaaaaaaaaaaaaaa a 10 de Julho de 2006 às 21:40
Marisa não te vou escrever aquelas coisas que se costumam dizer nesta altura, não tenho muito jeito!

Também a minha infância foi preenchida com as brincadeiras com um João... mas ele preferiu outra heroína...

Animo e adiante... mas, quando o voltares a ver, não lhe voltes as costas... apoia-o!

Beijos muitos.
De Marisa a 11 de Julho de 2006 às 09:14
Olá Loba, muito obrigada pela visita!
Pois é acho que todos temos um 'Paulo', mas eu acho que foi pelo choque, era o último sitio onde o esperava, e depois aquela imagem...
Não sei se o quero voltar a ver, acredita que doi muito pensar no que fomos e nos tornamos...
Baci.
De Zuco a 10 de Julho de 2006 às 16:37
Tive um "Paulo" que se matou. Tive outro que morreu de Sida. Tenho ainda outro que, apesar de o ver vároas vezes e de ter sido o meu melhor amigo de infancia, olha para mim como se eu fosse transparente...

Qualquer um de nós PODE ainda ser o Paulo...

Beijo na testa
De Marisa a 10 de Julho de 2006 às 16:49
Podemos, mas acreditas que preferia eu ser aquele Paulo do que ter de o engrentar assim, no que se tornou?
Aguento todos os outros Paulos, menos aquele...
Agradeço, um afago para ti...
De Rui Rebelo a 10 de Julho de 2006 às 13:21
Marisa, a vida dá voltas que nós nunca poderiamos sequer imaginar. Este post é a comprovação de algo que eu te disse á uns quantos meses atrás quando nos conhecemos e disseste que nao tinhas amigos. Tens Amigos, e os teus sentimentos demonstraram-te isso mesmo através das lágrimas.
De Marisa a 10 de Julho de 2006 às 14:38
Rui?
Que bela visita, pois é afinal tenho alguns amigos, mas não queria ter de os reecontrar desta forma...
Este era o maior...
Baci.
De homem de negro a 10 de Julho de 2006 às 13:14
Cara mia
Um outro tipo de sensibilidade que me deixou fascinado, se te lembrares de um post teu em que nos pegamos e onde eu te dizia que não sabia eras gente grande ou apenas uma gaja com a mania que era boa...
Desfaço esse equívoco hoje, fiquei a conhecer uma outra marisa, esta sim a marisita que eu pensava que existia para além do resto, esta sim gente grande...
Histórias como essa muitos de nós temos, seguramente, infelizmente... e que tal voltares lá amanhã para ir ao pão, novamente, talvez possas novamente dar-lhe um pouco de alento...
Hoje fascinaste-me, minha querida, deixo-te um beijo de carinho...
A gente vê-se por aí...
De Marisa a 10 de Julho de 2006 às 14:36
Olá Homem, grata pela visita e pela consideração, mas ontem quis voltar a ser pequena e a ver o meu amigo Paulo e voltar a ter sardas e toda aquela inocência ...
Sabes, acho que fiquei com medo de o voltar a ver, não sei se me apeteceu abraçá-lo ou apenas perguntar-lhe porquê?
Um beijo terno para ti, vemo-nos com certeza ...

Vero?

veropiacere@sapo.pt

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